terça-feira, 29 de novembro de 2011

Os ventos

Os ventos que sopram na janela do quarto costumam avisar que tempestade está vindo ao ser iniciado por uma ventania repentina e arrastar as folhas dos galhos que vão em direção aleatória de acordo com sua sintonia. Embora a tempestade venha com aviso prévio pelos sinais da natureza, ao fechar a janela tudo se harmoniza e o barulho tende a ficar lá fora, com as folhas, com o vento; a tempestade não lhe atinge. Mas e quando são ventos que penetram nosso corpo, avisando tempestades à caminho e não tem janela para fechar que possa impedir a invasão na casa? Ainda não há fórmula que possa tirar da gente as intuições que assim como os ventos, vêm para nos avisar que algo está por vir. Quando aperta o coração, atenção. Se vem positivamente, como frio na barriga e sentimento euforicamente bom sabe-se lá pelo quê, tranquilidade. Vem aí algo novo, algo benéfico. Há ventos que vêm como brisas, às vezes como leve carícia na pele, como felicidade instantânea; e há aqueles que vêm como uma ventania, e mesmo que passageira, vem intensa pra arrancar de bom o que se tem e implantar na gente os sentimentos inseguros que só servem para nos maltratar e ser causador-refém das próprias paranóias.
Estava eu um dia desses sentada no cais quando uma brisa tocou-me, nesse dia ela trouxera junto da intuição um perfume como se alguém estivesse passando naquele momento por mim. Não era ninguém, não havia sequer alguém ali comigo para dividir aquela brisa refrescante e neutra. Indaguei a ela se era o perfume de alguém se aproximando, e como num sussurro desfocado, entranhando e arrepiando minhas espinhas, soprou dentro de mim que aquele perfume ainda estaria muito presente não só no olfato, mas na vida também. Era iminente, aquele moço havia chegado com o vento e não era que aquele perfume havia mesmo ficado na minha memória? Assim que o senti, lembrei e percebi que a brisa aguçou a minha intuição, como se eu tivesse certeza que aquele moço estava comigo naquele dia no cais. Grande brincadeira essa, logo eu tendo certeza de alguma coisa.
Era como se o vento entrasse pela minha boca misturando-se com o oxigênio fazendo redemoinho dentro do meu estômago, e eu que sempre inventava amor por sentir falta do mesmo, me vi diante dele sem saber o que fazer e não consegui lembrar de nada do que havia decorado por anos quando o encontrasse realmente. O amor havia me achado e me cortejou com um sopro, logo depois se tornou vendaval. E pra quem achava graça em rodopiar com as folhas que caíam das árvores após a chuva de verão com as gotas de orvalho escorregando na textura esverdeada, uma coleção de estações haviam se instalado dentro de mim como se eu pudesse dar conta de me manter no equilíbrio, sendo que a textura esverdeada dos olhos daquele moço estonteou todos os meus sentidos. Como papel em branco, a tarefa a vida já havia me dado: recomeçar e esboçar meus próprios caminhos, e se tivesse de acordo com ela, logo se concretizaria por si só. E o vento? Aquele que me trazia os bons frutos das estações, também se achava no direito de arrancá-los de mim por puro egoísmo e deboche, mas me fazia rir de tudo no fim das contas por eu também possuir graça e um punhado de ironia. Viajei por milhas e ainda não encontro estadia estável que me hospede por muito tempo, ou que me faça sentir realmente em casa. Acho mesmo que a única diferença entre mim e os ventos que me cercam é a massa que contenho que me segura no chão e a gravidade que não me permite esvoaçar junto a eles. Mas vontade eu tenho, e me assemelho à passaros que voam pelo mundo, embora sempre voltem para o mesmo lugar. E aquele moço? Parecia um lugar onde eu havia pousado, e senti vontade de voar e voltar para ele, pra sentir o perfume dele, por que não o fiz antes? Aonde é que ele havia estado que atrasou tanto?
As coisas mudam, na verdade mudam muito. Eu sempre soube disso, quer dizer, quando mais menina tinha tremenda dificuldade em lidar com essas coisas, com as mudanças repentinas e o rumo que os ventos tomavam, soprando meus planos e expectativas para longe; esvoaçando-os ao léu e fazendo eu mudar a direção dos meus passos, mesmo que eu não quisesse, eles sopravam pra mim: era preciso, menina.
A noite está terminando, ventou bastante, achei até que fosse chover essa noite. Mas não, era só o vento brincando com os galhos das árvores e ora ou outra tentando me assustar batendo na janela. Ainda sinto o perfume daquele moço, faz um tempo que não o vejo... Mas o sinto, e como eu sinto! Novembro também está indo embora, quem sabe aquele moço fosse o pássaro e eu o lugar? Quem sabe ele volte. Eu espero, quem sabe os ventos me tragam ele de volta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

"Dê atenção ao que tem sintonia com você. E toque sua vida, sem agredir."

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...